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Dourados

Contaminação por remédios ainda ameaça córregos de Dourados

Estudo revela presença de medicamentos como analgésicos, hormônios e antibióticos nos córregos de Dourados, com impactos preocupantes na fauna aquática e riscos à saúde humana. Especialistas alertam para a urgência de medidas que evitem o agravamento da contaminação.

Publicado

em

Por: Rozembergue Marques da Silva

15/09/2025

O professor Dr. Yzel Rondon Súarez é biólogo, doutor em Zoologia pela UNESP/Rio Claro e professor da UEMS desde 1998. Trabalha principalmente com ecologia e biologia de peixes, bem como com as respostas desses organismos à perda de integridade ambiental em ambientes aquáticos. Seu colega, o professor Dr. Alessandro Minillo, é oceanógrafo, doutor em Engenharia Ambiental pela USP-São Carlos e bolsista de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da UEMS. Atua principalmente na área de ecotoxicologia ambiental voltada à qualidade da água. Nesta entrevista, os dois professores detalham o estudo, suas consequências e alternativas para evitar o agravamento do problema.

Prof. Dr. Yzel Rondon Suarez

O que os estudos realizados nas águas dos rios e córregos de Dourados detectaram? Quais os fármacos encontrados?

Nossos estudos, realizados em três microbacias da cidade de Dourados (Engano, Água Boa e Curral de Arame), detectaram que todas elas apresentam resíduos de fármacos e medicamentos no ambiente aquático, incluindo analgésicos (diclofenaco, naproxeno e ibuprofeno) e hormônios femininos, oriundos do uso de anticoncepcionais. Também identificamos contaminação por cafeína, presente em diversos medicamentos. Uma constatação importante é que, mesmo riachos considerados menos afetados — como o Curral de Arame — já apresentam resíduos desses fármacos.

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Prof. Dr. Alessandro Minilo

Como esses remédios ou seus compostos chegam ao leito ou às margens dos córregos?

De forma geral, existem várias possibilidades de entrada desses compostos no ambiente aquático, como fábricas de produtos farmacêuticos que descartam resíduos de forma inadequada. Especificamente na área estudada, a contaminação pode ser proveniente do uso humano, seguido da excreção (fezes e urina), que leva os fármacos ao lençol freático e, consequentemente, aos riachos. Há também o uso de medicamentos em animais, como gado, suínos, aves e peixes, cujos resíduos são eliminados pelas excreções e acabam chegando aos cursos d’água.

O descarte inadequado de medicamentos vencidos ou sobrantes diretamente no lixo também contribui para essa contaminação. Mesmo em áreas com esgoto tratado, o problema persiste, pois os sistemas tradicionais de tratamento não são projetados para remover esses compostos específicos, tornando-se insuficientes. Assim, os resíduos acabam chegando aos rios, riachos e lagos.

O que esses “resíduos” de remédios causam nos peixes? Quando ingeridos por seres humanos, os peixes contaminados podem transmitir alguma doença?

Cada fármaco pode ter efeitos distintos. Os hormônios provenientes de anticoncepcionais, por exemplo, podem causar feminilização em peixes e anfíbios — ou seja, indivíduos que deveriam se desenvolver como machos acabam se tornando fêmeas. Estudos indicam que esses hormônios também estão associados ao aumento de casos de câncer de mama e de próstata em seres humanos.

Analgésicos como diclofenaco e ibuprofeno provocam danos genotóxicos e neurotóxicos em várias espécies. Antibióticos, por sua vez, alteram a composição das bactérias naturalmente presentes no ambiente, podendo se acumular nos peixes. Quando consumidos por humanos, esses peixes podem causar reações alérgicas e contribuir para o surgimento de bactérias mais resistentes.

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Do ponto de vista da conservação da biodiversidade aquática, esses fármacos afetam o desenvolvimento dos animais, provocando deformações, alterações fisiológicas e mudanças nas populações naturais. Isso, somado a outros impactos como desmatamento e queimadas, representa uma ameaça ainda maior à biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos prestados por esses organismos.

Cada medicamento tem efeitos diferentes em grupos variados de animais e plantas. Citamos aqui exemplos que ocorrem em peixes e anfíbios, mas que também afetam os seres humanos. Cabe destacar que alguns fármacos detectados estavam em concentrações muito baixas e com grande variabilidade ao longo das áreas amostradas e do ano, por isso não foram o foco principal do nosso estudo.

Quais os níveis de contaminação encontrados em cada córrego estudado? Em quais córregos essa presença foi mais notada? O que fazer para evitar que esses resíduos cheguem aos córregos?

Entre os fármacos encontrados nos riachos estudados, os de maior concentração foram cafeína, naproxeno, diclofenaco, estriol e outros hormônios femininos, especialmente no córrego Água Boa. No córrego Engano, também foram encontrados os mesmos fármacos, porém em concentrações menores. Já no Curral de Arame, identificamos um número reduzido de fármacos e concentrações mais baixas (cafeína, naproxeno e diclofenaco). Compostos hormonais não foram detectados nesse córrego durante o período do estudo.

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