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Uma afirmação que se baseava na distorção de dados de estudos científicos repercutiu nas redes sociais ao dizer que o Brasil ficaria inabitável em 2070 em decorrência das mudanças climáticas e do aumento das temperaturas. A “tese” se originou com um artigo divulgado pela Nasa, agência espacial americana, em 2022, e em uma pesquisa publicada dois anos antes pela “Science Advances”.
As temperaturas do planeta de fato estão aumentando, entretanto, o estudo em questão – que pode ser conferido neste link – não afirma em nenhum momento que o Brasil ou qualquer lugar do mundo ficará inabitável em determinado período de tempo.
O estudo, cujo autor principal é Colin Raymond, pesquisador do Laboratório de Propulsão à Jato da Nasa no sul da Califórnia, na realidade faz uma análise do aumento das temperaturas do bulbo úmido entre 1979 e 2017.
De acordo com o biometeorologista Fábio Luiz Teixeira Gonçalves, do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo), a temperatura do bulbo úmido mede duas variáveis, a temperatura e a umidade, para determinar o conforto térmico.
Conforme Nathalie Tissot Boiaski, professora de graduação e pós-graduação de meteorologia da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), a temperatura do bulbo úmido demonstra como o corpo humano se resfria pelo suor. “Quanto mais seco estiver o ar, maior o resfriamento por evaporação e, portanto, menor a temperatura de bulbo úmido”, explica.
A professora acrescenta que um caso em que o ar é mais úmido, menor é o resfriamento pela evaporação do suor.
A temperatura do bulbo úmido mais alta em que um ser humano poderia sobreviver é de 35ºC e, no estudo de Raymond, é avaliado que os valores já superaram tal marca. “Se a umidade é muito alta, você sua e não evapora. Aí seu corpo superaquece porque você não consegue colocar o calor para fora”, pontua Fábio Gonçalves.
Com o estudo apenas avaliando o aumento das temperaturas do bulbo úmido e apontando uma tendência de elevação da medida, a distorção de informação veio de um artigo da Nasa de 2022. Na ocasião, Colin Raymond foi questionado sobre os locais do planeta em que haveria risco de o limite de 35ºC ser excedido.
O pesquisador declarou à época que era difícil avaliar quando um aumento ocorreria, sugerindo que algumas áreas vulneráveis seriam o sul da Ásia, o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, em 2050, e o leste da China, Sudeste Asiático e o Brasil, em 2070. Apesar disso, em nenhum momento Raymond afirma que essas regiões seriam “inabitáveis”.
Para o biometeorologista da USP, a afirmação que repercutiu é “exagerada”. “Inabitável é um termo muito forte. O artigo não fala isso. […] (A temperatura do bulbo úmido superior a 35ºC) Não é mortal para um ser humano saudável, mas é muito desconfortável”, pondera Fábio Gonçalves.
Ainda, Nathalie Boiaski acrescenta que há uma menor quantidade de estações meteorológicas que mediriam a temperatura do bulbo úmido a longo prazo em comparação com os países desenvolvidos, o que dificulta uma projeção para 2070. “A palavra ‘inabitável’ sequer foi mencionada na publicação”, contempla a professora da UFSM.
Apesar de não se tornar inabitável, o aumento das temperaturas representa um grande risco ao Brasil e ao mundo. O ano de 2023 foi o mais quente da história da Terra.
De acordo com Boiaski, um dos pontos importantes do estudo é a saúde pública, já que altas temperaturas do bulbo úmido representam problemas para idosos, crianças, pessoas com comorbidade e aquelas que trabalham ao ar livre. “É necessário que alertas de estresse térmico sejam amplamente divulgados e, com isso, garantir que as atividades externas em tais condições sejam suspensas”, aponta a professora.
Para Fábio Gonçalves, o artigo representa um alerta para que as pessoas tenham mais cuidado e atenção em relação ao aumento da temperatura do bulbo úmido.
(Planeta)
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